top of page
Buscar

Recreio na terra de "Narcos": a Colômbia de Garcia Marquez não é mais a Colômbia de Escoba

  • Foto do escritor: lagorudolfo
    lagorudolfo
  • 23 de out. de 2016
  • 6 min de leitura

Famosa estes dias pela série "Narcos" do Netflix e pelo surpreendente resultado do plebiscito que rejeitou a possibilidade de o governo fazer um acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farc), a Colômbia está bem longe de ser o destino perigoso e violento que a série de TV ou o noticiário podem fazer supor inicialmente.

Durante muitos anos, como bem mostra a série do Netflix, na qual Wagner Moura representa de forma brilhante o chefe do antigo Cartel de Medellín, Pablo Escobar, a Colômbia amargou o vexame e a tragédia de ser um país completamente dominado pelo tráfico de drogas. Escobar e seus adversários do Cartel de Cáli, os irmãos Rodriguez Orejuela, faziam o que queriam no país. Mandavam e desmandavam. Na sequência de tragédias vivida pelo país, Escobar chegou a explodir um avião de passageiros, matando centenas de pessoas e, quando foi preso, construiu ele mesmo o presídio em que ficaria, onde gozava de todas as regalias possíveis. Presídio que ficou conhecido como "La Catedral". Na última temporada, a série do Netflix mostrou como se combateu e se desmontou o Cartel de Medellín. Nas próximas temporadas, mostrará a guerra contra o Cartel de Cáli. Tudo à custa de muito sangue e violência, muitas vezes controversa.

O rejeitado acordo de paz pode ter sido um retrocesso na luta contra o segundo cancro colombiano. Que sempre se misturou e se retroalimentou do primeiro. Os grupos narcotraficantes tinham alianças tanto em alguns casos com as Farc como com grupos paramilitares anticomunistas, como também é possível se ver na série "Narcos". O último grande chefão do narcotráfico, "El Loco" Barrera, conseguiu a façanha de ter alianças tanto com as Farc como com o Exército Revolucionário Popular Anticomunista de Colômbia (Erpac). O fato, porém, é que se a população rejeitou agora o acordo de paz com as Farc, esse acordo de paz só vinha sendo possível de ser feito porque as Farc há algum tempo são, de certa forma, um tigre sem dentes, que já não assusta e amedronta tanto.

O narcotráfico ainda prossegue na Colômbia, sem o peso dos tempos dos cartéis. E o país certamente tem ainda problemas de violência semelhantes aos de outros países da América do Sul, com suas diferenças sociais. Caso do nosso Brasil. Mas nada disso é o que se vê passeando pelas suas ruas belíssimas, de antigas construções do colonial espanhol. Ou contemplando o lindo mar caribenho das suas diversas praias e ilhas. Em tudo, é bem mais possível se imaginar os senhores de terno de linho branco e chapéu dos romances e contos de Garcia Márquez que os sanguinários capangas de Escobar. O que parece restar desse passado recente é o ostensivo aparato militar pelas ruas, os soldados que, principalmente no centro de Bogotá, a todo minuto param as pessoas para revistar bolsas e fechar as ruas próximas à sede do governo.

Da Colômbia, conhecemos a sua capital, Bogotá, a maravilhosa Cartagena de Las Indias, e as Islas Del Rosario, incrível arquipélago próximo a Cartagena, de azul intenso, praias paradisíacas e uma intensidade de pássaros, peixes e outros animais.

Bogotá é uma das cidades mais antigas das Américas. Foi fundada em 1538 e era a capital do Vice-Reino de Granada, que administrava as colônias espanholas no território onde hoje ficam a Colômbia, o Panamá, o Equador e a Venezuela. Estendia-se ainda por partes do que hoje são os territórios da Guiana, Trinidad-Tobago, Peru e Brasil. Terceira capital mais alta do mundo, a 2.640 metros acima do nível do mar, Bogotá é uma cidade de clima ameno - ou frio, mesmo, em vários momentos. E a presença da colonização espanhola é forte especialmente no casario de seu lindo centro histórico. Ruas e ruas de bem preservadas casas centenárias. Passear por elas é voltar no tempo. Especialmente se, ao longo do caminho, você experimentar as frutas e iguarias que são oferecidas nas calçadas. Fatias de abacaxi, melancia, bananas, sucos, ou comidas como os patacones - que vem de "patacões", como eram chamadas as moedas de ouro espanholas: são medalhas douradas de banana frita - e as arepas - uma espécie de tortilha de milho.

Bem no centro de Bogotá, ao lado do Teatro de La Opera, o Hotel de La Opera é uma bela opção de pousada, um lindo casarão do século 17, com janelas para ruas incríveis. Mesmo que não fique ali hospedado, vá ao restaurante do hotel, que funciona numa sacada com linda vista para os telhados coloniais da cidade.

Além do passeio pelo centro histórico, Bogotá tem incríveis museus. O Museo del Oro é o maior do tipo, com um impressionante acervo de peças pré-colombianas, de ouro e outros materiais. São quatro andares de máscaras e outros ornamentos que eram usados pelos povos que os espanhois encontraram ao chegar na América.

Outro lugar imperdível é o Museu Botero, que reúne as obras do artista colombiano Fernando Botero Angulo, conhecido pelas suas gordinhas e pelos seus gordinhos. Num antigo casarão colonial, é possível ver diversas obras de Botero e de outros artistas colombianos e de outros países, como, por exemplo, algumas peças de Salvador Dalí.

Um funicular nos leva até o alto do Cerro de Montesserrat, onde há um convento e uma belíssima vista de toda a cidade de Bogotá, além de flores várias que servem de alimento para beija-flores. Um lugar espetacular.

Cartagena, conhecida como "a Joia do Caribe", é um encanto, com seu casario preservado pelos muros de pedra que circundam toda a cidade. Tombada como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco, Cartagena é a cidade onde vivia Gabriel Garcia Marquez. Ao contrário de Bogotá, em Cartagena o calor é intenso. Mas nada que impeça que se caminhe o dia todo por suas ruas incríveis, parando para beber nos diversos bares e para comer em seus restaurantes. Há praias em Cartagena, na região que fica fora da parte murada da cidade, que tem uma certa cara de Miami. Não espere, porém, ali o azul caribenho. Os vários anos de movimentação de areia para a construção de portos e canais tornaram a água dali um pouco menos azul, mais amarronzada. O mar é calmo, porém, e o banho é bom. Mas irrita um bocado a constante abordagem de pessoas vendendo massagens e badulaques.

Há diversos hoteis fora da parte murada, e é fácil se dirigir até a cidade histórica. Os táxis são fáceis de se conseguir e têm preço fixo, que não é caro. Mas é melhor ficar hospedado dentro da área murada, que, além de ser o principal destino, é onde ficam também os hoteis mais bonitos e históricos. É verdade que são também os hoteis mais caros.

Um dos diferenciais do artesanato colombiano, que pode ser obtido em Cartagena em qualquer uma das diversas lojas das Bovedas, antigo arsenal de armas que hoje abriga um mercado, são as casas em miniatura. As fachadinhas imitam com perfeição a arquitetura colorida da cidade, com suas portinhas de madeira e sacadas floridas.

A circundar toda a beleza do casario, há a impressionante muralha com sete quilômetros de extensão, que protege nada menos que quatros dos bairros de Cartagena. A muralha protegia a cidade dos ataques de inimigos e piratas. Cartagena foi durante anos uma das principais cidades das Américas, e as muralhas, com suas torres de observação, canhões e passagens subterrâneas, contam bem essa história.

As histórias de piratas e de outros ataques sofridos são bem retratadas no Museu Naval. E há outra história, sombria, que marca Cartagena como um dos principais centros da Espanha católica no continente americano. É o peso da Santa Inquisição. O Museu da Inquisição relata esse triste período, com seus horríveis instrumentos de tortura e execução. Em um inocente muro branco, uma janela com grade de ferro guarda a passagem desse tempo: a Janela da Inquisição, onde as pessoas denunciavam as "bruxas" e outros "hereges".

Fora da parte murada, a presença espanhola aparece em outras construções, como o belo forte San Felipe de Barajas, construído em 1657. Ou no convento de Santa Cruz de La Popa, no ponto mais alto da cidade, de onde se tem uma bela vista de Cartagena.

Apesar do calor, a linda cidade convida a andar. E isso inspirou o Monumento aos Sapatos Velhos, de onde se avistam os muros do forte San Felipe de Barajas. Os sapatos velhos são uma referência a um poema de Luiz Carlos Lopez, chamado "A mi Ciudad Nativa": "Mas hoy, plena de rancio desaliño/Bien puedes inspirar ese cariño/Que uno le tiene a sus zapatos viejos".

A terminar a aventura, o azul intenso do Mar do Caribe, nas Islas del Rosario. Próximo de Cartagena, esse arquipélago é composto por 28 ilhas de coral. Convém levar sapatilhas para as praias, que têm o chão formado por conchas que podem furar e machucar os pés. O mar azul que é uma verdadeira piscina morna, onde se nada o tempo todo acompanhado por garças, albatrozes e pelicanos compensa tudo. Para se chegar às ilhas, há diversas lanchas que saem de Cartagena. A viagem dura cerca de duas horas e meia. É possível encomendar passeios de um dia aos diversos resorts. Mas o barato mesmo é ficar hospedado num dos vários hoteis desse paraíso por dois ou três dias.

Em uma das ilhas, há um fantástico Oceanário. Ali, é possível ver golfinhos, tubarões, e uma infinidade de outros peixes e pássaros caribenhos. Para comer, peixes, lagostas. E aquela vontade de, se o mundo acabar, que ele acabe por ali.

Na volta, certamente as lembranças de dias agradáveis e inesquecíveis. Do recente passado violento colombiano, só vão ficar os resquícios do aparato ostensivo militar. Que, porém, se esforça para ser gentil, ainda que não consiga ser invisível.

Veja outros posts da seção Recreio:


 
 
 
Featured Posts
Verifique em breve
Assim que novos posts forem publicados, você poderá vê-los aqui.
Recent Posts
Search By Tags
Follow Us
  • Facebook Long Shadow

© 2023 by PlayPlay. Proudly created with Wix.com

bottom of page