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Quase todo mundo que é Cunha não dura muito na política

  • 7 de jul. de 2016
  • 3 min de leitura

Quando estava naquele site cujo nome não merece ser nomeado, escrevi que os planos de ambição de Eduardo Cunha poderiam ter um limite. Na ocasião, ele estava no auge do seu poder como presidente da Câmara. Mas seu estilo já deixava centenas de feridos pelo caminho. E ficava claro que em determinado momento seus planos não coincidiriam com os planos de seus eventuais aliados, especialmente no PMDB do hoje presidente interino Michel Temer. Quando tais planos eventualmente deixassem de coincidir e Cunha tropeçasse, da mesma forma como ele deixou feridos pelo caminho e não socorreu a ninguém, ninguém também o socorreria. Gostaria de por aqui um link daquilo que escrevi lá atrás, mas, por alguma razão que desconheço, tudo o que foi por nós publicado no site que não merece ser nomeado foi retirado da internet. Um crime contra a memória do jornalismo brasiliense que alguém, por alguma razão, resolveu cometer.

Na história da política brasileira, ninguém foi mais Cunha que Eduardo Cunha. Por Cunha chamo todo político que julgou que poderia ser arrogante, autossuficiente, pouco diplomático, sem jogo de cintura, violento e autoritário com seus subordinados, implacável com seus adversários, absolutamente certo de que seus planos e interesses estavam acima de tudo e que era permitido atropelar quem quer que fosse para alcançá-los. Uns mais e outros menos, todos os que foram Cunha acabaram entrando pelo cano. Talvez Eduardo, o mais Cunha de todos – e justamente por ter sido o mais Cunha de todos – tenha conseguido levar mais longe seu desfecho. Mas ele estava anunciado.

Na verdade, cada uma das manobras de Cunha para adiar o seu desfecho ia anunciando a diminuição do seu repertório. A renúncia vai nessa linha. Cunha imagina que poderá, assim, reverter sua cassação e, nos bastidores, continuar exercendo influência. Ainda tem aliados que o ajudam nessa tarefa. Mas a cada truque, os aliados vão minguando. As investigações contra ele não vão parar. Como não param para os demais investigados na Operação Lava-Jato. Novas Tias Erons vão aparecer no seu caminho.

Minha amiga Teresa Cardoso descreve Eduardo Cunha como “um perfeito Ricardo III”. E a comparação que ela faz – não com o Ricardo III real, mas com o vilão de Shakespeare – é que é absolutamente perfeita. O Ricardo III de Shakespeare é talvez o maior vilão de toda a dramaturgia. Mas o que importa na comparação é justamente o fato de que Shakespeare conta a história de um rei tirano que, quando cai em desgraça, se vê abandonado por todos. É quando, acuado, profere na peça sua famosa frase: “Um cavalo. Meu reino por um cavalo”.

A verdade é que quase todos os Cunhas de outrora também ficaram sem um cavalo. Tomando-se aqui somente aquela descrição de atitude – que fique claro que é somente isso que se está aqui comparando –, mesmo a principal antagonista de Eduardo Cunha em todo esse processo, a presidente afastada Dilma Rousseff, foi um bocado Cunha. Também está no DNA da sua desgraça a arrogância, a autossufciência, o jeito pouco diplomático, a falta de jogo de cintura, etc.

Assim foi também o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. O ex-senador Luiz Estevão. O ex-presidente da Câmara Ibsen Pinheiro. Sobre todos eles é possível dizer que caíram politicamente muito mais porque seus estilos não inspiravam qualquer compaixão de seus companheiros. Há o caso daqueles que foram Eduardo Cunha e caíram, mas voltaram, como Fernando Collor e o próprio Ibsen. Voltaram, mas sem o mesmo poder de antes.

Meu amigo Nelson Torreão apontou uma exceção: Antonio Carlos Magalhães. De fato, ele conseguiu ser por anos poderoso com seu estilo truculento. ACM talvez tenha sido um Cunha melhor que o próprio Cunha em outro aspecto: o de reunir aliados importantes ao seu redor. E, apesar do estilo truculento, ele demonstrou também maior habilidade que Cunha nos momentos em que percebeu que precisava recolher as suas armas. Quando renunciou para evitar ser cassado no episódio da violação do painel do Senado na cassação de Luiz Estevão, ACM não esticou tanto a corda como faz agora Eduardo Cunha. Assim, ACM foi levando mais adiante seu jeito de ser Cunha. Mas, quando caiu, após levar às últimas consequências sua briga com Jader Barbalho, da mesma forma nunca mais conseguiu ser o mesmo. Ao final – de uma longa carreira, é fato –, ACM não era nem a sombra do todo-poderoso coronel baiano de outrora. O longevo Cunha baiano também viu chegar seu dia de Ricardo III.

A verdade é que o estilo suave e conciliador daqueles que antigamente eram chamados de “velhas raposas políticas” costuma levar a carreiras mais estáveis e longevas na política. Tancredo Neves que os ensine...


 
 
 

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