Tudo ao mesmo tempo agora
- 6 de jun. de 2016
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Cada dia a mais na Lava-Jato vai tornando mais evidente que a investigação que ali se iniciou não parece ter mesmo o propósito de atingir apenas um partido, somente apear determinado grupo do poder. A investigação está inserida a uma crise do nosso sistema político. Trata-se de questionar a forma como a política brasileira é financiada e como se relacionam os financiadores da política e os políticos financiados. Isso já foi dito aqui algumas vezes. Mas cada passo da investigação e da crise que a acompanha só ajuda a reforçar essa impressão.
Poucas foram as semanas em que essa impressão de "tudo ao mesmo tempo agora" foi tão forte como agora. Estão neste momento na berlinda desde a presidente afastada Dilma Rousseff até o senador tucano Aécio Neves, passando pela alta cúpula do PMDB do presidente em exercício Michel Temer e pelo outro peemedebista em destaque, o deputado afastado Eduardo Cunha (RJ). E todos os tiros contra todos esses personagens têm a mesma origem: as delações premiadas daqueles que estão sendo investigados e presos na Operação Lava-Jato.
Das informações prestadas pelo empreiteiro Marcelo Odebrecht e pelo ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró, apontam-se os canhões para Dilma. Odebrecht afirma que ela pediu a ele dinheiro para financiar sua campanha e que isso foi negociado pelo ex-tesoureiro da campanha e depois ministro da Secretaria de Comunicação, Edinho Silva. Algo que agrava a situação de Dilma, mas aponta o foco também para Michel Temer: a campanha de Dilma era a mesma de Temer. Cerveró diz que Dilma sabia de tudo sobre a negociação para a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. E que depois que a coisa estourou resolveu entregar Cerveró à própria sorte, deixando-o de bode expiatório.
Já o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado afirma ter passado R$ 70 milhões à cúpula do PMDB. Dá detalhes dessa operação, embora os possíveis beneficiários a neguem. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, fez com que se discutisse durante todo esta segunda-feira (6) a possibilidade de se entregar mais uma cabeça no Ministério Temer. E novamente seria uma cabeça do núcleo duro do atual presidente: depois de Romero Jucá, que deixou o Planejamento, seria Henrique Eduardo Alves a perder a pasta do Turismo. Segundo Janot, conforme publicou a Folha de S.Paulo, Henrique Eduardo Alves teria atuado para obter recursos desviados da Petrobras em troca de favores para a empreiteira OAS. Michel Temer chegou a cogitar demitir mais um ministro - seria o terceiro em quatro semanas. Depois, concluiu que essa instabilidade atrapalhava seu governo. Nada que, porém, melhore muito: seu governo mais "estável" fica contaminado pelas investigações que prosseguirão.
Já Eduardo Cunha segue manobrando na Câmara. Mas o momento da votação do seu processo de cassação no Conselho de Ética vai se aproximando. Cunha já demonstrou várias vezes que ainda tem força sobre parte dos deputados, além de uma capacidade impressionante de reação, seja a que custo for, para se manter no cargo. Mas é difícil avaliar se o tempo de fato o ajuda. A cada adiamento que consegue, novos fatos reforçam a acusação contra ele.
E a noite terminou com o Supremo Tribunal Federal (STF) abrindo um segundo inquérito para investigar denúncias contra o senador Aécio Neves (PSDB-MG). De novo da delação de Delcídio Amaral sai a acusação de que Aécio teria atuado para maquiar dados do Banco Rural na CPI dos Correios para esconder o mensalão mineiro, espécie de tubo de ensaio do mensalão do PT. Além de Aécio, entram na acusação Clésio Andrade e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, hoje no PMDB. Na época da CPI dos Correios, Delcídio era o presidente da Comissão de Inquérito. Aécio era governador de Minas, e Clésio era o seu vice. Eduardo Paes era à época secretário-geral do PSDB e também integrava a CPI.
Saem, assim, balas para todos os lados e gostos da metralhadora giratória da Lava-Jato. Se há escolha de alvos, não é dali que ela parece sair. Mas dos ambientes políticos, especialmente no Congresso Nacional. Se alguém puder eventualmente escapar, isso dependerá dessa capacidade de construir um ambiente político a seu favor. Mesmo isso, porém, parece difícil. Haja habilidade e couro grosso para escapar de tanta bala...
























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